Autoconhecimento puro e simples não existe. E sabe por quê?
Autoconhecimento virou palavra da moda, mas ninguém é um ser pronto. Por que faz mais sentido perguntar como eu funciono do que quem eu sou.
Autoconhecimento virou a palavra da moda
Você já percebeu como a palavra autoconhecimento está na moda? “Você precisa se conhecer!” Está no vídeo de trinta segundos, no livro, na conversa de mesa e em boa parte do que se fala hoje sobre saúde emocional.
Mas afinal de contas, será que conseguimos realmente saber quem somos?
Eu tenho minhas dúvidas. E sabe por quê?
Porque você não é algo pronto
Porque somos um ser em construção. Não somos algo pronto, acabado. Estamos nos desenvolvendo, adquirindo hábitos, fazendo escolhas, enfrentando dificuldades e descobrindo novas possibilidades.
Quem você é hoje não é quem você era há cinco anos, e não é quem você vai ser depois de atravessar o que ainda está por vir. Procurar uma definição final de si mesmo é tentar fotografar uma casa que ainda está sendo levantada.
A pergunta certa: como eu funciono?
Então, talvez seja mais correto falar em autofuncionamento.
- Como eu funciono?
- Como eu reajo?
- Como eu penso?
- Como eu escolho?
- Como eu me relaciono?
- Quais são as minhas tendências?
Repare que essas perguntas são bem mais concretas que “quem sou eu?”. Elas se observam na segunda-feira de manhã, no trânsito, na conversa difícil que você vem adiando e naquela promessa que você faz todo ano e não cumpre.
O que os temperamentos explicam, e o que não explicam
É aí que os temperamentos podem nos ajudar. Eles apresentam tendências do nosso funcionamento, mas não são uma sentença e muito menos definem tudo aquilo que somos.
Eu já escrevi aqui sobre por que você reage assim e seu irmão, daquele outro jeito: a mesma casa, a mesma perda, reações opostas. O temperamento mostra onde você acelera e onde trava. Ele não decide o seu futuro.
E aqui precisamos ir além. A antropologia filosófica nos ajuda a compreender o homem não apenas pelo comportamento, mas pelo seu ser. A psicoterapia tomista, por sua vez, nos permite olhar para inteligência, vontade, hábitos e para aquilo que pode ser desenvolvido no homem.
Mas então, onde entra a felicidade?
Fulton Sheen, em O Caminho da Felicidade, nos provoca justamente a pensar que a felicidade não pode ser reduzida à satisfação dos nossos desejos ou simplesmente ao fato de “nos sentirmos bem”.
E isso muda a pergunta.
Talvez não seja suficiente perguntar “quem sou eu?”. Talvez seja necessário perguntar “como eu funciono e para onde estou caminhando?”.
Conhecer não basta. É preciso compreender
Porque posso conhecer meu temperamento, meus padrões, minhas dificuldades e até minha história e, ainda assim, continuar sem saber o que fazer com tudo isso.
Conhecer não basta. É preciso compreender. E compreender o funcionamento é diferente de colocar uma etiqueta em si mesmo.
Você não é o seu medo. Não é o seu trauma. Não é o seu temperamento. Não é aquilo que aconteceu com você. Você está em construção.
A etiqueta tem um efeito colateral: ela explica e para por aí. É o mesmo limite de dar um novo significado a uma dor sem tocar na marca que ela deixou. Alivia, organiza a história, e a estrutura por dentro continua a mesma.
Dá para saber de cor o próprio rótulo e continuar com a cabeça que não desliga na hora de dormir. Saber o nome não desliga o alarme.
Por que aqui eu falo em autofuncionamento
É por isso que, na Uma Dose de Equilíbrio, eu prefiro falar em autofuncionamento. Porque não se trata simplesmente de descobrir uma versão pronta de você.
Trata-se de compreender o ser humano, suas tendências, sua história e seu funcionamento para, a partir daí, trabalhar aquilo que precisa ser desenvolvido.
Afinal de contas, se queremos cuidar da árvore, não podemos olhar somente para as folhas. Precisamos conhecer a raiz.
Sou terapeuta em Itabirito/MG e atendo online para qualquer lugar do Brasil (presencial fica sob consulta).
Pra levar
- Autoconhecimento puro e simples não existe: o que existe é um ser em construção tentando se entender.
- Troque “quem sou eu?” por “como eu funciono e para onde estou caminhando?”. A segunda pergunta se observa no dia a dia.
- Temperamento é tendência, não sentença.
- Colocar uma etiqueta em si mesmo explica o passado e não muda o presente.
- Compreender o funcionamento é o que abre caminho para desenvolver aquilo que precisa ser desenvolvido.
E aí eu te devolvo a pergunta: você quer descobrir quem você é, ou quer compreender como você funciona?
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